quarta-feira, 20 de abril de 2011

Eu piso no que sobrou do choro. Eu piso no que sobrou da chuva. Enfio meus pés no suor que escorreu no meu corpo. Na água que nasceu pura. Na sujeira saída do banho. Eu piso no caldo. Na mistura. É nela que me fortaleço. na água que entra pelos vãos dos meus dedos. Na que sobe até a cintura. É nela que eu me inundo. Com ela que eu cresço. Como raiz que se alimenta do que está no vaso, absorvo de volta o que transbordei. Lágrimas de amores errados. Saliva caída de beijos. Suor escorrido pelas costas. Medos que transpirei. Eu piso no que já foi tempestade e agora é poça. Na água que já foi benta e agora é profana. Eu piso no que já foi batismo e agora é pecado. No transparente que agora é opaco. É na mistura que me fortaleço. Eu piso. Sugo. Engulo. Tomo de volta o que já foi meu. O que veio com a chuva. O que a corrente não levou. O que ainda não secou. Eu me encho. Me derramo. Eu piso na água pra poder mudar com a lua. Balançar como a onda. Acompanhar a maré. Eu piso na água pra poder voltar para o lugar de onde fui expulso. Pro úmido. Silêncio escuro do útero. Eu piso na água pra renascer.
Eduardo Baszczyn

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